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Ah, a marmeleira!

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Só se olha com saudades para o passado quando o presente não dá conta do recado, e o futuro anuncia que pode ser ainda pior. Há lugares aonde só vou arrastado, pelo mínimo possível de tempo, o shopping center é um tipo desses. Pior ainda quando cheio de adolescentes ou crianças mal criadas.

Certa feita, entro em uma fila para pegar meu pacote, havia uma festinha infantil para dali a uma ou duas horas. À minha frente havia uma mulher que demonstrava claramente seu despreparo para a função de mãe, o fedelho mexia teimosamente em um boneco horroroso e todo empelotado, que mais parecia uma biba de cademia do que o Wolverine...

- Carlinho, pára de mexer! Pára, Carlinho. Carlinho, não mexe. Eu não vou levar a sua picapinha! Carlinho, não mexe que o homem tá olhando!...

No decorrer da ladainha, o moleque não dava a mínima para o que ela dizia. Não sei qual dos dois merecia mais um correctivo, talvez uma vara de marmelo nos glúteos. Sei que tirei o brinquedo horroroso do lugar assim que ele virou as costas e saiu, embora a mãe ainda estivesse na fila. Brinquedos horrorosos, aliás, estão tendo safras recordes há anos.

Já fora da loja e longe do ar condicionado inexplicavelmente no máximo, vejo mais exemplos de uma geração que dará continuidade às gangues, no que depender de seus pais. Molecotes onde a espiral genética precisa ficar dobrada, por falta de espaço, dominando os marmanjos com "Eu quero é agora!" ou chutes impunes no tornozelo. Depois de "Ai, machucou o papai" fiquei em dúvidas sobre quem deveria jogar pelo vão, dois andares abaixo, mas logo descobri que me tornaria um serial killer. A doença se alastrou.

Nas praças de alimentação o festival de desperdícios ratificava minha posição. Pratos e copos deixados pela metade davam uma idéia clara do que acontece no ambiente doméstico. Fora aqueles pezões enormes a obstruírem a circulação entre as mesas, que já são muito próximas para o meu gosto. Para alguns deve parecer humilhante não deixar ao menos uma colher sobrando no prato, ou não pedir um king full size quando um sanduíche médio já satisfaria.

"Com licença", "me desculpe", "por favor" e "obrigado" parecem ter se tornado atestados de inferioridade social, tanto mais quando mais jovem o indivíduo. Verdadeiros reizinhos.

Eu não sou a favor de maus tratos, sei muito bem a discrepância de forças que há entre um adulto e uma criança. Muitos canalhas se valem do argumento de "educar os filhos" para descarregarem neles tudo que não podem descarregar do mundo, ou naquele policial enorme que mandou tirar o carro da vaga para deficientes. Um dia os filhos ficam grandes e eles ficam velhos.

Fora isso, uma orelha puxada no acto da birra produz efeitos miraculosos, dá direitinho o recado e a noção de causa e conseqüência. Porque se a família não der a educação necessária, o mundo lá fora vai fazê-lo da pior forma, agrava muito se o adulto de então não souber lidar com frustrações.

O chefe (ou o cliente) não vai admitir ser maltratado, será demissão no primeiro chilique, para que o mau comportamento não se dissemine na empresa. Entre perder um cliente e perder um empregado encrenqueiro, ele não terá dúvidas.

Vi naquela fatídica tarde uma geração inteira totalmente despreparada para o que a vida mais oferece, lições que são tão duras quanto maior for a incapacidade de aceitá-las. Mesmo para quem nasceu e cresceu na adversidade essas lições podem ser traumáticas, mas este consegue digerir, quem foi mimado não consegue nem mesmo acreditar nela.

Ser agressivo, bruto e tirano com os pais não é "normal" nem "cousa do mundo moderno", é animalismo. As pessoas estão achando normal ter um bicho que morde, se suas vontades não forem feitas na hora, como se a única utilidade da família fosse lhe dar prazer; mais ou menos como achar normal o cão segurar o dono pela coleira.

Também ajuda a estragar quando os pais acham que ter recursos, é ter obrigação de dar tudo o que puder para quem não precisa e não merece. Saber quanto custa ganhar algo não é chantagem, não sei de onde os pais tiraram que uma criança não deve nem saber que existe dinheiro, quanto mais o trabalho que dá para ganhá-lo.

Para quem acha que uma palmada dói, advirto que a polícia bate muito mais forte e com muito mais vontade.

 

By: do fantástico, Palavra de Nanael
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"Faltam Cores"

Lembram que postei alguns Bugattis coloridos e que comentei achar que o mundo andava meio cinza e sem graça por falta de cores? Pois bem, meu queridíssimo amigo Nanael Soubaim do blog, Palavra de Nanael escreveu sobre a minha indignação com maestria. Só ele mesmo prá colocar em letrinhas o que eu penso. Sem contar que ele tem conhecimento de causa. Leiam pois o texto é excelente, enriquecedor, uma delícia.

Obrigada, amigo.



"New está certa. Faltam cores nos leques oferecidos pelas montadoras. Embora a culpa não seja exclusivamente delas.

As concessionárias economizam com estoque, com a baixa oferta de cores, por isso mesmo não estimulam a população a escolher cores. O povo, por sua vez, fica com medo de na hora da revenda, ficar difícil passar o possante para frente. Deixam de comprar o que gostam para agradar aos outros. A argumentação de que há cores mais fáceis de vender cai por terra, quando se analisa seriamente o mundo dos carros usados.


No meu tempo, não havia tanta exigência estética na compra de um usado. Primeiro porque compra um carro usado quem precisa, se pudesse compraria um novo e escolheria desde a cor até os acessórios da loja autorizada; Segundo porque ninguém tem os mesmos gostos que os outros, por mais predominantes que sejam. Se olhavam a estrutura e a mecânica, nem sempre a cor decidia a compra. Nem todos gostam realmente de cores sóbrias, a prova é o sucesso de vendas do Ecosport, que oferece tons de amarelo e vermelho dignos dos anos 1970, bem como as picapes grandes, como a F250 e as mais arrojadas, como a L200.

Na verdade, perguntando às pessoas que compram carros usados em tons de cinza, preto, branco ou prata, vi que elas também têm muito medo de ser difícil passar o carro para frente, mais tarde. Há, nas redondezas do meu bairro, uma F250 laranja-tô-podendo, não bastando o tamanho, o carro é visível a quilômetros, mesmo de noite.

Notaram? Não é gosto, é medo de rejeição. Neste caso é psicologia agravada pela economia. As pessoas não compram o que gostam porque alguém (quase sempre garageiro) pode usar o mito instalado para depreciar o carro. Os ladrões agradecem.



Os carros estão todos muito iguais, com essa monotonia cromática fica fácil roubar um e escondê-lo no próprio trânsito pesado das metrópoles. Ninguém tenta roubar um Opala SS 1975, simplesmente porque os tons que oferecia (principalmente aquele verde escandaloso) o destacavam no trânsito por mais cores que os outros carros tivessem. E eram muitas cores, era praticamente impossível confundir dois carros na multidão rodante, a não ser que fossem duas Kombis dos correios.

Ah, a Kombi. Lembro que ela já teve um leque muito bom de cores, inclusive contou, por muitos anos, com a charmosa pintura saia-e-blusa, com a parte acima da linha da cintura branca e a de baixo em outra cor qualquer, como vermelho, azul ou verde. Hoje só sai branca, alegam que para reduzir custos. Mas não dava para oferecer cores opcionais? Eu conheço mecânica industrial, sei que é possível, muito mais questão de vontade que de técnica ou economia. Mas não é a primeira besteira daquela que já foi minha montadora preferida.

Não que eu escolhesse uma combinação de roxo e vermelho escarlate, se fosse comprar um carro novo, mas um azul celeste intenso eu compraria.

Aliás, as seguradoras parecem ainda não ter notado o tamanho da seriedade: É muito fácil esconder um carro no trânsito. Se um ladrão tiver que escolher entre um Ecosport amarelo e um dourado-esmaecido, o segundo será candidato a virar clone. É muito fácil. Cores que o mitológico mercado (que não passa de multidão, multidão não raciocina) compra em excesso facilita a vida do meliante, dificultando a recuperação e tornando o carro uma escolha mais óbvia. Porque não se oferece um dourado vivo, mas tons esmaecidos ou sombrios de dourado, o mesmo valendo para a prata. São tons muito parecidos e muitíssimo fáceis de confundir com outros. Imaginem o cidadão chegando à seguradora e ouvindo "Cinza? Bem, então há um acréscimo de 5% na franquia". Asseguro que um saia-e-blusa vermelho e branco é tão ou mais sóbrio que as cores tristes tão em voga, mas muito mais difícil de esconder, seja no trânsito, seja em uma vila da peripheria.

Quem dera fosse só (?) com os automóveis. Hoje as pessoas acham prejorativamente brega ter um liquidificador azul na cozinha, pior ainda se toda esta for colorida. Tudo tem que ser branco, cinza ou preto. Meu, a cozinha é o coração da casa! Se o coração da casa é sombrio e triste, que dirá o resto? Nem panos de prato bem bordados são admitidos, porque não se acha chique. Desculpem, mas sou do tempo em que chique era ser sem fazer força, sem querer seguir modas ou (muito menos) agradar aos outros. Se a questão é ser "chique", sigamos o exemplo da Rolls Royce, que oferece a cor que o cliente escolher, seja ela qual for e em que combinação for.

Alguém pode argumentar que o mundo está sombrio, que a sociedade está sombria e que o "mercado" só reflete as tendências. Repito então: Não existe mercado. Existem multidões que, como tais, não raciocinam, portanto também não se regulam, ficando à mercê de qualquer espertalhão que saiba vender suas idéias, sejam quais forem. Multidões não raciocinam, portanto também não escolhem, simplesmente seguem. O mundo e a sociedade são as pessoas, os indivíduos; eu, tu, ele, nós, vós, eles. Cada um de nós, não um ser sobre humano e intangível. De cada um de nós, eu não aderi a essa histeria pré fabricada.



Se começam a aparecer pedidos de ventiladores verdes, carros lilazes, armários de aço azuis, eles serão fabricados, no mínimo como opcionais, dependendo da demanda, esta que depende de cada um de nós.

Houve uma tentativa, nos anos 1980, de resistir à melancolia coletiva em que mergulhamos, por conta das besteiras que nós mesmos fizemos. Houve exageros de formas e tons, mas foi uma tentativa de as pessoas não se entregarem. Porque só às trevas interessa uma população apática e conformada. Das cores passaram para os filmes, os programas de televisão, as músicas, até os quadrinhos. Tudo ficou triste e pessimista. Feio. A alegria não se expressa mais no jeito de ser, mas nos abusos, na vulgaridade e na depredação.

Eu gostava mais quando cores e formas davam nossos recados."

By: Palavra de Nanael.
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